O mundo líquido de Zygmunt Bauman: 12 livros para compreendê-lo

O Mundo Líquido de Bauman é muito discutido. Mas, apesar de aparente simples, para compreendê-lo é necessário um mergulho mais profundo em seus livros. Neste texto vamos compreender em quais obras podemos encontrar os fundamentos para este conceito.

Pavilhão da Água (HtwoOexpo), em Neeltje Jans, Holanda, 1997. Projeto do NOX. Uma arquitetura líquida para um mundo líquido.
Pavilhão da Água (HtwoOexpo), em Neeltje Jans, Holanda, 1997. Projeto do NOX. Uma arquitetura líquida para um mundo líquido.

SOBRE O MUNDO LÍQUIDO DE BAUMAN

Os resultados das pesquisas no Google sobre o “mundo líquido” ou o “mundo líquido de Bauman” nos ajudam a ter uma ideia do que foi pesquisado. No entanto, os resultados não são precisos.

Grande parte deles recai no senso comum de que o mundo líquido é fluido. Não obstante, inconstante, que muda de forma o tempo todo e por isso seu estado e consequências são imprevisíveis. Em síntese, simplificando ao máximo, é exatamente isso. Mas, não passa de uma simplificação sobre a qual cada um interpreta como quer ou como deseja. Afinal, somente expõe as propriedades dos líquidos que qualquer manual de física é capaz de nos apresentar. Embora haja um box organizado pela Zahar com 4 de suas obras fundamentais, nomeado de Para entender o Mundo Líquido, esta é só uma fração da totalidade de sua obra.

Para se chegar a tal conclusão, “tudo no mundo parece não durar”, não precisa de muito esforço. É uma constatação óbvia!

Então, por que este assunto é relevante?

Se essa é uma metáfora relevante e se ela pode nos ajudar a compreender o mundo que vivemos, precisamos considerar três perguntas:

  1. Quais os motivadores e razões de tais mudanças?
  2. Para quais direções elas estão indo?
  3. Para onde tais transformações estão nos levando?

É aqui que se encontra o brilho de Bauman. Também a razão de uma simples metáfora ter tanta notoriedade. Bauman analisou as causas, as possíveis direções e as consequências dessa instabilidade que tanto nos assusta.

Em síntese, são 12 livros que traduzem o mundo líquido baumaniano. Impossível compreendê-lo a partir de um só. Em cada um deles, Bauman refletiu sobre algum aspecto que ajuda a desenhar seus contornos. Sua aparente repetição não passa de uma aparência necessária. Neles há processos de aprofundamento de temas ou discussões que não puderam ser feitos anteriormente. Para cada livro novo, que parece redundante, há um continente conceitual e temático que ele descobriu ou explorou em sua viagem pelo mundo líquido.

UMA TRILOGIA PARA O MUNDO LÍQUIDO

É comum na obra de autores mais experientes a continuidade de suas reflexões em diversos livros. Alguns organizam suas potentes teses em livros que, juntos, materializam sua grande proposição. Neste sentido, ao lado de Bauman encontram-se Michel Foucault, Eric Hobsbawm, Manuel Castells, Peter Sloterdijk, Yuval Harari, entre outros tantos.

Bauman analisou a virada do século e as condições do presente em três livros: Globalização: as consequências humanas (1997); Em busca da Política (1999), e Modernidade Líquida (2000). Estes três livros operam juntos como uma cadeira de três pés.

Trilogia para o Mundo Líquido.
Trilogia para o Mundo Líquido. Fonte: Pedro Henrique Máximo, 2021.

Globalização: as consequências humanas

Em Globalização: as consequências humanas, Bauman constatou algo interessante. Identificou que havia um distanciamento entre poder e política. O que o produziu? A Globalização. Por que? Ela roubou dos lugares a capacidade de solução de seus próprios problemas. Ou seja, a globalização tirou o poder da política. Uma espécie de divórcio sem a anuência ou concordância de uma das partes. Um divórcio litigioso.

A Globalização não acabou com a política. Não a destruiu. O que ocorreu em depois desse divórcio é que a política continua a ser local. Ela ainda é praticada por cidadãos e governantes. O que mudou então? O poder está longe desses atores políticos. Ele circula. Vai daqui para acolá. Volta, e depois nos deixa novamente.

Assim, este fenômeno inédito trouxe consequências diversas. No livro, Bauman analisou as consequências humanas. O que ocorreu com os habitantes das cidades? E com o vendedor da esquina? Com proprietário da padaria? O que aconteceu com os trabalhadores? E com as elites econômicas?

Bauman identificou que se instalou nas cidades um clima de guerra. A insegurança é um de seus sentimentos comuns. O medo também. Mas houve um conjunto de consequências concretas. A fome, a pobreza, a desigualdade, o desemprego. Todos estas características somadas a boa dose de incerteza.

Enquanto isso, as elites que detêm poder determinam aonde será o próximo investimento. Se na África do Sul, na China, no Brasil ou no México. O que importa é que ele extraia daquele novo lugar o máximo possível. Por outro lado, os governantes e as populações locais têm de fazer concessões para tornarem seus locais mais atrativos. Essas concessões, no entanto, causam sofrimento às pessoas.

Em busca da política

No livro Em busca da política, Bauman fez uma extensa investigação sobre as distorções da vida pública causadas pela separação entre poder e política. Ou seja, deu sequência à investigação iniciada no livro anterior.

Para ele, ocorreu neste pós-divórcio uma espécie de atomização do indivíduo. O que isso quer dizer? Sobre os ombros de cada pessoa recai a sorte de problemas que ela não causou. Em outras palavras, o indivíduo é responsabilizado por seu sucesso e fracasso, ainda que em ambiente social sob pressão.

Os agentes da Globalização prometeram aos indivíduos a liberdade. Aos gestores públicos também. No entanto, essa liberdade não foi criada, discutida e regulamentada pelos cidadãos, mas imposta. Em síntese, uma espécie de imposição sutil e às vezes silenciosa.

Por um lado, esta liberdade chegou aos países e nações por meio da Democracia Liberal. Unânime entre os países do Ocidente na virada do século 21. Ironicamente, Bauman a nomeou de “A economia política da incerteza”, pois introduziu uma concepção de liberdade altamente imprecisa. Imprecisa porque possui diversos contornos que, na verdade, se assemelham a uma imensa prisão.

Modernidade Líquida

Com Modernidade Líquida Bauman concluiu a trilogia para o Mundo Líquido. Diante destes três livros já era possível aferir uma mudança estrutural no mundo.

Certamente o maior engodo do termo “pós-moderno” ou “pós-modernidade” era seu caráter negativo. Ou seja, só dizia o que não éramos mais. Mas Bauman, por sua vez, ousou dizer o que somos: ainda somos modernos. Para ele, a modernidade não só não acabou, como foi aprofundada.

Há algumas razões para isso. Em primeiro lugar, porque a ideia ou concepção da pós-modernidade teria soado como uma farsa, uma constatação precipitada ou um exercício tolo de futurologia. Exercício que ele mesmo teria incorrido anteriormente.

Em segundo lugar, porque o que havia mudado não era a natureza de nossa Era, mas seu agravamento e expansão. Essa expansão produziu mudanças profundas no modo como vivemos o mundo e suas contradições.

Daí a metáfora do líquido. Uma matéria só muda de estado quando há um aumento da temperatura ou um aumento de pressão. A globalização introduziu mais pressão aos países e lugares. Não obstante, também fez aumentar a temperatura desses lugares. Em síntese, o resultado é uma combinação infinita de processos em transformação. Tudo muda, tudo se altera e tudo se desloca.

No livro Bauman analisou alguns pontos. Fez um destaque da compreensão geral que se tinha da modernidade, por ele nomeada de sólida. Analisou estes pontos em nossos dias. Eles ainda existem? Se sim, o que permaneceu e o que mudou?

Em resumo, Bauman analisou 5 temas. Cada um deles foi exposto em um capítulo. Emancipação e Individualidade são os dois primeiros. Os três últimos são tempo/espaço, trabalho e comunidade. Estes temas foram importantes para a modernidade sólida. Ainda o são para a modernidade líquida.

ENSAIOS PARA O MUNDO LÍQUIDO

Os desdobramentos da trilogia para o mundo líquido foram inúmeros. Bauman já era reconhecido por suas potentes obras anteriores, Modernidade e Holocausto (1989); Ética pós-moderna (1993) e Mal-estar na pós-modernidade (1997), mas Modernidade Líquida o colocou como um autor de relevância Global.

Podemos, neste sentido, atribuir a Bauman uma categoria em sua carreira como sociólogo: a fase líquida. Foram 20 anos de pesquisas, entre ensaios e teses publicadas em livros, entrevistas, textos em jornais e revistas.

Interpretações e aprofundamento do mundo Líquido.
Interpretações e aprofundamento do mundo Líquido. Elaborado por Pedro Henrique Máximo, 2021.

Livros que esclarecem a visão de Bauman sobre o Mundo Líquido

Em Amor Líquido (2003) Bauman analisou as transformações dos laços humanos nas esferas pública e privada. Apontou para uma fragilidade evidente e latente nesses laços e o papel das redes na providência dessa versatilidade e flexibilidade de relações. Em Vida Líquida (2005) acrescentou considerações sobre o afrouxamento das relações humanas já discutidas em Amor Líquido. Além disso, postulou sobre a condição de insegurança que trouxe uma nova vanguarda ao século 21: a vanguarda do eterno recomeço.

Medo Líquido (2006) é fruto de suas reflexões sobre as grandes cidades e os fantasmas que elas nos impõem: violência urbana, terrorismo, rejeição amorosa, grandes diásporas e desemprego. Bauman constatou o grande papel das redes, do marketing e das grandes corporações nesses locais. Neles, ao passo que se instala o medo generalizado, multiplica-se os dispositivos de controle e vigilância.

Em Tempos Líquidos (2007) Bauman dá continuidade às reflexões sobre as metrópoles globais e a mudança do pensamento social. Sua atenção se dá à compressão do espaço e do tempo, noção que permeará suas análises sobre a competitividade de mercado (transformada em campos de batalha), a pressão global sobre as identidades e tempos locais e conclui que estes são fatores que contribuem para o agravamento do medo e da insegurança, pois colaboram para a desestabilização da solidariedade social.

Na sequência Bauman publicou um conjunto de ensaios em A cultura no mundo líquido moderno (2011). Nele analisou o conceito de cultura sob diversos prismas: moda, as nacionalidades, o mercado e o Estado, as diásporas, a globalização e a União Europeia.

Zygmunt Bauman colunista

Após este longo percurso repleto de ensaios, Bauman assumiu claramente a noção de mundo líquido, que pode ser traduzido da seguinte maneira:

“[…] esse mundo, nosso mundo líquido moderno, sempre nos surpreende; o que hoje parece correto e apropriado amanhã pode muito bem se tornar fútil, fantasioso ou lamentavelmente equivocado. Suspeitamos que isso possa acontecer e pensamos que, tal como o mundo que é nosso lar, nós, seus moradores, planejadores, atores, usuários e vítimas, devemos estar sempre prontos a mudar: todos ansiamos por mais informações sobre o que ocorre e o que poderá ocorrer. Felizmente, dispomos hoje de algo que nossos pais nunca puderam imaginar: a internet e a web mundial, as “autoestradas de informação” que nos conectam de imediato, e tudo isso dentro de pequenos celulares ou iPods que carregamos conosco no bolso, dia e noite, para onde quer que nos desloquemos.

Felizmente? […]”

(BAUMAN, 2010, p. 8)

Este trecho é de 44 cartas para o mundo líquido moderno (2010). Este livro é composto por pequenos textos publicados na La Repubblica delle Donne entre 2008 e 2009. La Repubblica delle Donne é uma revista italiana semanal destinada ao público feminino. No livro há alguns textos bastante divertidos, nos quais Bauman expôs análises sobre as mídias sociais como Twitter e Facebook, Barack Obama, trabalho, solidão e sexo.

Diálogos sobre o mundo líquido publicados em livros

Na sequência destas publicações, Bauman fez uma série de parcerias com pesquisadores e escritores para discutir sua obra.

Diálogos sobre o Mundo Líquido.
Diálogos sobre o Mundo Líquido. Elaborado por Pedro Henrique Máximo, 2021.

Destas, destacam-se três livros. Em Vigilância Líquida (2013), Bauman e David Lyon analisaram a constituição e expansão dos mecanismos de controle que superaram ou substituíram o modelo panóptico. Estes estão implantados em governos e no setor privado, nas cidades (nos espaços públicos e privados), e nos itens pessoais, como computadores e smartphones. Domina a noção de segurança, e o setor que mais lucra com ela é o ramo da proteção e empresas do setor. 

Este livro é um importante complemento de Medo Líquido, assim como Mal Líquido (2013), desenvolvido por Bauman e Leonidas Donskis. Por fim, a obra póstuma Nascidos em tempos líquidos (2017), Bauman e Thomas Lencioni fizeram análises sobre assuntos muito atuais, como cyberbulling, tatuagem, cirurgia plástica, sexualidade e relações sociais mediadas pelas mídias sociais.

Este conjunto de obras auxilia a compreender o mundo líquido. Enfim, o mundo que vivemos. Zygmunt Bauman foi um dos principais tradutores desse mundo. Ele não somente constatou tais mudanças, mas investigou suas razões e possíveis direções. Além do mais, refletiu, como sociólogo, quais os possíveis impactos dessas mudanças para a vida humana. Novamente, eis o motivo de seu grande brilho.

Este texto é uma constatação, e as sínteses das obras aqui expostas não são mais que isso: sínteses. Cabe, a cada uma delas, um olhar atento. Esta tarefa faremos em outro momento.

Pedro Henrique Máximo
Pedro Henrique Máximo

Arquiteto e Urbanista. Doutor em Arquitetura e Urbanismo (UnB). Professor e pesquisador.

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