O Corpo em Zygmunt Bauman (I): a saúde, a boa forma e a cultura fitness

O corpo não é um assunto ou tema muito problematizado pelos críticos de Zygmunt Bauman, talvez por ser secundarizado ou não ter sido tema de esforços repetidos e de destaque. No entanto, Bauman se debruçou sobre ele. Constituiu um conjunto de subtemas interligados ao corpo. Destes se destacam sexo, sexualidade, desejo, identidade, comunidade, saúde e boa forma.

Este texto é o primeiro de três sobre o tema corpo na obra deste sociólogo. Nele conversaremos sobre saúde e boa forma, assuntos aparentemente correlatos, mas que guardam grandes diferenças quando analisados do ponto de vista sociológico.

Todos nós temos um corpo

Este assunto é, para mim, muito importante. Acredito que para a maioria dos leitores e leitoras também. Sempre lutei contra a balança. No entanto, apesar do pavor, às vezes recorria a ela obsessivamente. Em algumas ocasiões, até duas vezes no mesmo dia averiguava meu peso. O mesmo ocorria na minha juventude com exames clínicos. Às vezes mensalmente recorria ao laboratório.

Obviamente, este era um comportamento difícil para mim. Eu realmente estava “acima do peso”. Mas esta obsessão não era resultado somente da minha preocupação com meu próprio peso. Lembro-me das outras pessoas dizerem: “nossa, você engordou”; “O Pedro está acima do peso” e daí por diante. Na minha adolescência eu subia na balança para enxergar o quanto estava “acima do peso”.

Certa vez decidi emagrecer. Foram 28 quilos em 5 meses. Tinha 17 anos. Emagreci tanto e tão rápido que a sensação de estar “fora do peso” ainda persistia. Meus amigos e vizinhos diziam: “nossa, como você emagreceu”; “emagreceu demais”; “Pedro, você exagerou”. Neste contexto, meus exames clínicos não alteraram em nada. Todos os índices estavam dentro da normalidade como sempre estiveram. Assim, baixei a guarda!

Desde então tenho lidado com o “estar fora” das normas. Não possuir o corpo socialmente desenhado, estipulado, matematizado e (por que não!) desejado tem sido fonte de sofrimento e reclusão. Assim, estabelecer pontos de contato social é, para mim, sinônimo de exposição dessa fraqueza. Por que, se todos nós temos um corpo? Não somos, enfim, diversos corpos e corpos diversos? Apesar de afirmativa, a diversidade não tem sido fonte de conforto e alento. Há uma ambivalência latente na diversidade.[1]

Zygmunt Bauman: uma sociologia do corpo?

Neste texto vamos conversar sobre corpo, saúde e boa forma na perspectiva do nosso amigo Zygmunt Bauman. Ele nos deixou mensagens importantes, ainda que, no entanto, pouco estudadas, destacadas e analisadas.

Os comentários e análises de Bauman sobre o tema em sua obra são pontuais, mas precisos. Ele as inseriu em grandes contextos em que temas específicos são interconectados. Assim, foi necessário investigar várias obras, identificá-las e analisá-las. Interessante é que nas repetições Bauman sempre acrescentou novas interpretações e explicações sobre este tema em obras posteriores. Como afirmei em O Mundo Líquido de Bauman: 12 livros para compreendê-lo, este parece ser seu modus operandi intelectual.

Assim, o tema do corpo na sociologia baumaniana é difuso, mas persistente. Deste tema abrem-se diversas outras janelas teóricas e associações temáticas, como corpo e sexo, corpo e identidade, corpo e desejo, corpo e individualidade, entre outros. Deste modo, para organizar tal conteúdo, os dispus em três textos e este é o primeiro deles, com recorte na relação corpo, saúde e boa forma.

O corpo socialmente construído

Nascemos e somos corpos biológicos. Nossos corpos indiscutivelmente possuem determinantes genéticos. Portanto, nossos traços e características principais são determinados pela natureza e não pela cultura. Em outras palavras, “’herdamos’ nossos corpos, inteiramente feitos por genes”[2] e suas características originárias não são derivadas de nossas escolhas ou ações.

No entanto, disse-nos Bauman e May: “nossos corpos são objeto de condicionamento social”[3]. É um autoengano imaginar o contrário. Cada cultura ou sociedade possui um conjunto de códigos que caracterizam um tipo ideal ou tipos ideais de corpos. Estes tipos também não são estanques ou perenes, mas variam ao longo do tempo. Podem mudar sutil e lentamente e às vezes radicalmente. Assim, a depender de onde estamos e com qual grupo interagimos podemos ou não ficar confortáveis com nossos corpos. Ao mesmo tempo, por outro lado, a inadequação pode nos conduzir aos mais variados tipos de humilhação e sofrimento.

Tal condição, portanto, nos conduz a um entendimento de que nossos corpos precisam ser construídos, pois estão sempre inacabados, imperfeitos ou inadequados. As normas sociais que todos notadamente partilhamos impõe aos corpos um deslocamento. É necessário um conjunto de ações e cuidados diários capazes de moldá-lo, adequá-lo ou adaptá-lo às normas. Essa compreensão quase unânime, portanto, tem colocado a construção do corpo como um dever socialmente estabelecido e do qual poucos conseguem escapar. Isso faz dos corpos objetos de estudo sociológicos porque, também, são socialmente construídos[4].

O corpo, o medo e o sofrimento

Freud foi claro quanto aos medos humanos[5]: medo da morte, medo da natureza, e medo de não conseguirmos nos enquadrar às relações sociais e humanas e a suas normas. Medo de não atender a seus requisitos. De não ser aceito. Enfim, medo de não fazer parte.

Este último é a principal fonte de sofrimento atual, especialmente quando tratamos dos corpos. Nossos medos imperam porque queremos engajamento e nos engajar socialmente, mas seus parâmetros, normas e leis, não são construídos por nós mesmos. Eles nos antecedem ou são constituídos por uma poderosa indústria. Pouco podemos contribuir com eles e nossa capacidade de ação não ultrapassa a esfera privada ou as relações mais próximas. Há, assim, uma sensação de desajuste, desencaixe ou um desencontro dos corpos com o tipo ideal normatizado.

Estar adequado às normas era e é pressuposto primário de aceitação. Era e é o bilhete de acesso. Por falar em acesso, por exemplo, posso citar os edifícios inacessíveis a Pessoas com Deficiência (PcD). Historicamente a constituição da arquitetura das cidades era pensada e executada para pessoas sem deficiência e minimamente convergentes com as normas do corpo. Exclusão era a regra para os inadequados às normas. Inclusive, exclusão territorial. Os PcDs do passado eram invisibilizados pelas famílias, pela sociedade e pelas instituições sociais, portanto, não saíam de casa ou eram colocados em sanatórios afastados da cidade.

Embora muito tenha mudado, há ainda processos de exclusão e inacessibilidade para estes e outros corpos. Isso porque o corpo é o instrumento legítimo do que somos (ou do nosso self, como disseram Bauman e May[6]) para conhecimento e reconhecimento social. É o que de nós é visto e percebido. E é a “última linha de defesa de nosso conjunto de trincheiras”[7] contra o mundo exterior e os perigos que apresenta.

Saúde e bem-estar

A busca pela saúde e bem-estar de nossos corpos são pontos importantes. Há uma dupla razão para isso: 1) do ponto de vista do cuidado de si; 2) do estabelecimento de um “projeto” de si. A dupla razão é convergente e para nós a possibilidade do acompanhamento deste processo. Há um conjunto de parâmetros mensuráveis que pode nos dizer como está a saúde dos nossos corpos. Por exemplo, fazer exames clínicos, subir numa balança ou aferir a pressão sanguínea. Para, em tese, garantirmos uma boa saúde é necessário estar dentro dos parâmetros e das faixas estipuladas para estes testes como normais ou adequadas. Estar fora delas, por outro lado, exige atenção.

Assim, o mais interessante é que no mundo líquido (em que tudo muda e que pouco ou nada podemos controlar), um projeto de saúde do corpo “tem suas vantagens”[8]. Parece ser uma das poucas coisas que está à nossa mão e que podemos controlar. Parece!

[…] “como saber se eles [os cuidados com os corpos] são suficientes?”[9], questionaram Bauman e May. Eis uma questão fundamental que não diz respeito aos parâmetros estabelecidos para a boa saúde. Diz, acima de tudo, a “algo externo à relação com nossos corpos – as sociedades”[10], que podem não assumir tais parâmetros como suficientes. Em outras palavras, a depender da sociedade e suas normas para um corpo ideal, ser saudável não será suficiente e imporá às pessoas uma pressão para o ajuste.

Eu imaginava que a atual e grande atenção dada ao corpo era por ser uma das poucas coisas ainda passíveis de controle. Estava errado! A intensiva atenção dada a ele se dá pela incapacidade de controle dos tipos ideais de corpos que definitivamente não podemos controlar.

Ser fitness e a cultura da transgressão

“Ser fitness[11] diz respeito à transgressão às normas, não à adesão a elas”[12]. Ao contrário da noção de saúde e de bem-estar, mediada por parâmetros claros, a boa forma e o corpo fitness (ou apto) não estão ligados a eles. Estão, acima de tudo, relacionados ao tensionamento das capacidades do corpo ao limite e não ao que ele normalmente faz. Em resumo, atendem ao requerimento social de que estar saudável não é suficiente. É preciso parecer e se mostrar saudável.

Ir às academias e propor programas restritivos de alimentação e suplementação são pontos importantes da cultura da transgressão do mundo fitness. Além do mais, lojas específicas de vestimentas, acessórios e adereços para os corpos fitness estão por toda parte. Em outras palavras, há um mercado à serviço deste universo cujos parâmetros não são muito claros.

Não são claros ao ponto de movimentarem um nicho específico de mercado, pois alimentos normalmente consumidos geralmente não atendem às expectativas do corpo fitness. Fazer uma caminhada na vizinhança não trará um abdome trincado, embora seja aprazível para uma boa saúde. Em suma, se alimentar bem e fazer exercícios cotidianos, leves e moderados, condicionam o corpo à saúde, mas não à boa forma.

Atributos que definem os parâmetros da boa forma são os de um corpo “magro, elegante e ágil” e “atlético”[13]. Atributos que, no entanto, “não podem ser medidos”[14]. Já possui baixo percentual de gordura corporal? Sempre será possível reduzir um pouco mais para parecer saudável e forte. Se é possível comparar pessoas saudáveis, não é possível comparar pessoas fitness, mesmo que do mesmo peso, altura ou percentual de gordura. Bíceps poderão possuir dimensões diferentes, assim como a cintura. Também será possível encontrar nessas pessoas índices de saúde fora dos parâmetros de normalidade, mas parecerão saudáveis.

Preocupações com o corpo e a ansiedade

Tanto para um projeto de saúde do corpo quanto para o corpo fitness, há um ponto de destaque a ser feito. Ambos podem provocar ansiedade e outros sentimentos negativos, pois são sensíveis às pressões externas que são cada vez mais exigentes.

A busca pela saúde dos corpos tem se tornado cada vez mais sinônimo de fitness. No entanto, são compreensões diferentes e dominantes em tempos diferentes da história. A saúde dos copos não era só desejável como requisito básico para a empregabilidade na sociedade de produtores. O corpo fitness ou o corpo apto[15], como Bauman preferiu nomear em Modernidade Líquida, é sensível aos desejos e ambições da sociedade de consumidores, cujos parâmetros são rapidamente mutáveis.

Portanto, Entre estar saudável e parecer saudável há uma distância a ser percorrida. Esta distância é normal e paradoxalmente parte dos problemas psíquicos. Melhorar a performance do corpo e deixá-lo sempre atualizável pode, assim, causar sofrimento e ansiedade. Isso porque a saúde na direção da aptidão (fitness) e a aptidão do corpo exigem vigilância, autocontrole e a eliminação de riscos de desvio. Passa-se de uma sociedade saudável para a sociedade que se ocupa em controlar e mensurar os riscos de seus comportamentos, utilizando-se dos recursos anteriores (parâmetros claros e fixos) e atuais (parâmetros imprecisos e voláteis).

O corpo saudável e a ansiedade

A depender da sociedade, grupo ou comunidade que participamos ou somos integrantes, a satisfação com o corpo saudável pode durar pouco. Esta condicionante pode fazer o indivíduo enxergar a adequação aos parâmetros de saúde como um passo de um longo percurso. Isso porque, de modo geral, a sociedade da produção, que exigia que o corpo estivesse saudável para o trabalho pesado em fábricas, já não existe como antes[16].

Assim, há uma ansiedade possível de ser desencadeada, pois é necessário manter a vigilância sobre o próprio corpo, cultivar o que foi adquirido e prosseguir rumo aos novos objetivos de um novo projeto. O que passa a preocupar nestes casos não é somente a prevenção às doenças, que passam a ser mais difusas. É a adequação aos parâmetros imprecisos de estar sempre apto e flexível.

Em Modernidade Líquida, Bauman nos alertou para a existência de corpos saudáveis dispostos a intervenções cirúrgicas e submetidos a dietas milagrosas e restritivas. Parece, portanto, que a busca pela saúde está na direção da busca pela “aptidão”, chancelada pela cultura da transgressão e medição de probabilidades de riscos, e não necessariamente pela simples adequação aos parâmetros da boa saúde. Assim, a orientação de especialistas da saúde e bem estar dos nossos corpos parece insuficiente para alcançar o status de corpo desejável.

O corpo fitness e a ansiedade

No caso da cultura fitness há ao mesmo tempo a culpa e a satisfação. Estes sentimentos produzem ansiedade em função de longos períodos de treino e preparação à espera dos resultados. Longos períodos de alimentação restritiva e exercícios pesados, quando não produzem os resultados esperados geram frustração. Ainda assim, a satisfação quando ocorre o contrário é momentânea, tendo em vista a árdua tarefa, quase impossível, de manter índices corporais tão extremos e pelo novo padrão que surge em seguida.

A ansiedade na busca pela aptidão corporal para lidar qualquer eventualidade se inicia no princípio da busca pela experiência pessoal e subjetiva da conquista da perfeição. Bauman fez uma metáfora interessante sobre o assunto: a busca pela aptidão, pelo corpo fitness, é como garimpar a procura de uma pedra preciosa cuja forma e tipo não pode ser antecipada até ser encontrada[17]. Portanto, não se sabe como será o percurso muito menos o resultado.

O percurso está inteiramente subjugado a variações constantes, a técnicas novas que substituem as já superadas pela ciência e à dieta que varia a cada produto suspenso do cardápio da alimentação saudável e ao novo introduzido. A busca pelo fitness não é linear, mas parece um percurso em ziguezague cujos pontos de mudança são definidos pelas novas descobertas e produtos. Neste percurso não há descanso. A cada micro resultado obtido é necessário traçar novas metas e incorporar os eficientes e atualíssimos exercícios de academia.

Já os resultados, estes sempre serão momentâneos. A cultura fitness é, portanto, aquela do autoexame crítico e severo em frente ao espelho. A constituição do corpo apto nunca estará apta o bastante. O exercício solitário e subjetivo do projeto de si passa a ser autodepreciativo e de “ansiedade contínua”[18].

A inércia e a ansiedade

No caso oposto dos dois acima citados, para os corpos que estão fora dos padrões de saúde e não aparentam uma boa forma, a zombaria e o achincalhamento podem levar à ansiedade. Em alguns casos mais extremos, à exclusão, e em casos comuns, sentimentos de não pertencimento ou inadequação.

Assim, diante das pressões sociais sobre os corpos, fazer alguma coisa para moldá-los está tão sujeito a angústias quanto aqueles que nada fazem. No entanto, são angústias diferentes e com consequências diferentes para as pessoas.

Deste modo, há uma ambivalência latente neste mundo em que as aparências importam. Sofremos porque oscilamos entre o querer acompanhar o tipo ideal e ser deixados em paz. Oscilamos entre a preocupação de si, o desejo de adesão e a negação do ideal de vida saudável. Em resumo, sofremos porque não é possível negociar com o tipo ideal estabelecido. Em outras palavras, estamos fora ou dentro. E lutamos, ao mesmo tempo, pela intimidade das relações e pela solidão do distanciamento.

Para não dizer que não falei de…

Para não dizer que não falei de corpo, sexo, sexualidade, desejo e erotismo, este texto é o primeiro de uma série de textos sobre Bauman e o corpo. Também, para não dizer que não falei de corpo, identidade e comunidade, este texto é o pontapé inicial de um mapeamento temático da obra de Bauman, cujos conteúdos se entrecruzam e cujos temas estão submersos por esta trama.

Fazer este tipo de trabalho é como montar um quebra-cabeças de peças dispersas. É também como interligar pontos e resquícios de um imenso sítio arqueológico. Portanto, este texto ainda passará por acréscimos em função de possíveis novas pelas.

Assim, uma conclusão sobre o que Bauman disse sobre o corpo só virá ao final do terceiro texto. No entanto, já é possível dizer que sua contribuição é importante para a leitura social e sociológica dos corpos.


[1] (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999)

[2] (BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 157)

[3] (Ibid.)

[4] (Ibid.)

[5] (FREUD, Sigmund. Mal-estar da cultura. Porto Alegre: L± Edição de bolso, 2010.)

[6] ( BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 157)

[7] (ibid., p. 158)

[8] (ibid.,)

[9] (Ibid.)

[10] (Ibid., p. 159)

[11] Bauman compreende a noção de fitness como estado da forma física e capacidade de enfrentar os desafios da vida com dotes como “industriosidade, poder, destreza, coragem, presteza, energia, vigor e vitalidade” em Nascidos em tempos líquidos (2018, p. 34).

[12] ( BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010 , p. 163)

[13] (Ibid, p. 164)

[14] (Ibid, p. 165)

[15] (BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 91)

[16] (Ibid.)

[17] (Ibid., p. 92)

[18] (Ibid., p. 93)

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